A QUEDA DE JUDÁ, O EXÍLIO NA
BABILÔNIA E O RETORNO (719-333 a.E.C)
"Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém
que se resseque a minha mão direita"
Salmos 137:5-6

Após a queda de Samaria, em 719 a.E.C., restava aos
judeus apenas o Reino de Judá, pequeno e pobre. Pareceria que nenhuma nação
teria interesse em conquistar Judá, mas não foi isto que aconteceu. Judá era o
maior dos poucos reinos da costa do Mediterrâneo que ainda mantinham sua
soberania¹ e o maior deles, por isso tornou-se objeto de desejo das potências
próximas: Egito e Assíria.
Ezequias, rei de Judá logo após a queda de
Israel, tentou estender a soberania da casa de David sobre os territórios do
Norte. Enviou mensagens convidando o povo que restara em Israel a juntar-se ao
povo de Judá na celebração do Pessach. Alguns foram, mas o importante é que esse
fato fez com que Senaqueribe, rei da Assíria, enviasse um exército para arrasar
Judá. Chegaram a sitiar Jersualém, mas aconteceu alguma coisa com seu exército
(provavelmente uma peste) e o cerco teve de ser suspenso. O exército assírio
marchou de volta para casa e Judá manteve sua independência.
Foi nesse período que viveu Isaías, um dos
maiores profetas judeus. Apoiara Ezequias, mas era totalmente contrário à
política de Manasseh, seu sucessor. Manasseh, para enquadrar Judá na civilização
assíria, permitiu práticas pagãs e sacrifícios a Deuses estrangeiros no Templo.
O governo de Amon, seu filho, tirânico como o pai, não foi suportado pela corte,
que o assassinou. Colocaram Josias, seu filho de oito
anos² no trono. Josias
empreendeu reformas religiosas que visavam uma volta às raízes do judaísmo. Logo
depois, Judá foi conquistada pelo Egito e, pouco mais tarde (600 a.E.C), a
aliar-se à Babilônia.
Em 597 antes da era comum,
Nabucodonosor, imperador da Babilônia, colocou seus exércitos em frente às
muralhas de Jerusalém, para punir o descumprimento de alianças anteriores entre
os dois reinos. Depois de uma pequena tentativa de defesa, Nabucodonosor invadiu
a cidade, ordenando que os cidadãos mais importantes e sábios, assim como os
maiores tesouros do templo e do palácio, fossem levados para a Babilônia. Porém,
o reino de Judá só viria a cair totalmente em 586 a.E.C, quando aconteceu um
segundo exílio. O templo foi totalmente destruído e sobraram no antigo reino de
Davi quase que somente camponeses. O povo judeu então ficou dividido entre os
que viviam no exílio na Babilônia (Galut Bavel) e os que continuavam morando na
Palestina.
Diferentemente do exílio na Assíria - onde os judeus deportados se assimilaram
totalmente – os exilados na Babilônia se articularam em comunidades, não
deixando o judaísmo morrer. Nos primeiros momentos, os exilados entraram em
profundo desespero, não entendiam como o mesmo Deus que tinha prometido
protegê-los tinha permitido essa humilhação. Porém, com o tempo, eles foram
aceitando as condições do exílio, alguns até consideravam-se o verdadeiro povo
de Israel, contrapondo-se aos que haviam ficado na Palestina.
Sem dúvida os
deportados para Babilônia viviam em condições muito melhores que as dos que
ficaram na antiga Judá. Eles não foram escravizados, muito pelo contrário,
protegidos pelo rei, se fixaram, sem perder os laços judaicos. Eles não só
mantinham a divisão das tribos, como os líderes das tribos seguiam a genealogia
começada antes do exílio. O único sofrimento infligido aos moradores da
Babilônia era o fato de não terem um país próprio, pois na sua nova moradia não
sofriam de perseguições religiosas e podiam plantar, acumular riquezas e seguir
sua religião.
Com o tempo e a
prosperidade o anseio de volta para a Palestina diminuiu. Muitos judeus foram se
afastando de sua fé original, se distanciando de Deus e se assimilando. Por
outro lado, alguns continuaram fiéis aos poucos profetas que não tinham sido
corrompidos e às leis divinas. Esses eram ridicularizados pelos outros judeus,
mas quanto mais eles eram humilhados, maior se tornava a fé em deus. Ezequiel,
um dos maiores profetas da época, instituiu que a redenção e a volta a terra
prometida aconteceria pelo cumprimento estrito das ordens divinas e pela conduta
moral do indivíduo. Eles criaram pequenos templos, onde rezavam orientados para
Jerusalém, chamados sinagogas, para suprir a ausência do Templo Sagrado.
Os velhos escritos
judaicos e a história do povo judeu foram bastante relidos e reinterpretados. O
verdadeiro motivo do exílio, segundo os estudiosos era a desunião do povo judeu
e a grande assimilação e desvio das leis divinas que aconteciam antes do exílio.
O exílio era uma punição a tudo isso. Houve grande sincretismo religioso entre
os babilônios e os judeus. A história da Criação do Mundo e do Dilúvio, contidas
no livro do Gênesis, são parecidas com o mito de criação babilônico. Alguns
estudiosos afirmam que a Torah foi compilada na Babilônia, como uma reunião das
crenças judaicas da época.
O imperador persa
Ciro, em 537 a.E.C., invadiu e dominou todo império babilônico, liberando os
judeus para voltarem para sua terra natal. Isso se deveu a política de Ciro para
regiões conquistadas, que permitia governos locais, mantendo suas religiões e
costumes.
Os judeus eram
livres para voltar para a Palestina, mas mesmo assim, muitos decidiram ficar na
Babilônia e aproveitar as boas condições econômicas, sociais e da
kehilá
ao invés de viajar até Jerusalém, onde não havia quase nenhuma riqueza. Mesmo
assim parece que 42.000 judeus foram até lá.
Quando chegaram,
decidiram construir as muralhas da cidade antes do Templo. Os inimigos do rei
Zorobabel enviaram, então, uma carta ao rei da Pérsia dizendo que os judeus
tramavam uma rebelião. Dário, rei da Pérsia, interviu, impedindo a construção da
muralha. Sem Templo e sem cidade fortificada, Jerusalém não podia manter sua
independência internacional. Este fracasso fez com que se apressasse a
construção do Templo, que a autoridade do rei fosse diminuída e que o poder
recaísse sobre o sumo-sacerdote do Templo, terminado no ano de 516 a.E.C.
Passou-se um tempo
sem que a presença do Templo surtisse algum efeito. Veio, da Babilônia, um homem
muito respeitado, sacerdote e escriba – um educador: Esdras. Ele não sabia das
verdadeiras condições dos judeus na Palestina e ficou assustado ao descobrir que
estes não sustentavam devidamente o Templo e se casavam com estrangeiras
livremente. Reuniu-se com os dirigentes e firmou-se líder do povo. Pediu que os
judeus expulsassem as esposas estrangeiras de seus lares e exortou-os a retornar
ao judaísmo puro. Esdras não teve sucesso, pois pediu demais dos judeus, eles
não estavam dispostos a desfazer suas famílias. Decepcionado, Esdras retirou-se
da vida pública.
Lentamente,
chegaram, à Babilônia, notícias ruins sobre a situação na Judéia. Isto
entristeceu Neemias, judeu que era conselheiro do rei. Pediu permissão para
afastar-se do cargo e foi para a Palestina com o cargo de governador militar.
Quando chegou, concluiu que os povos vizinhos estavam deliberadamente impedindo
os judeus de manterem sua religião. Concluiu que precisava expulsá-los. Para
isso decidiu reparar e terminar a muralha. Desconsiderou as advertências dos
dirigentes sobre possíveis ataques amonitas e samaritanos. Estimulou o povo a
realizar a tarefa e, para rechaçar ataques, armou os operários, de modo que os
construtores trabalhavam com uma espada a seu lado.
Neemias fechou as portas do Templo, onde ocorria o comércio, do pôr-do-sol de
sexta-feira até o pôr-do-sol do sábado, para impedir que mercadores não-judeus
fizessem comércio nesse dia. Houve protestos, mas os comerciantes se
acostumaram. Ele também institui um imposto para a manutenção do Templo e fez
cumprir as leis da Torah sobre a propriedade da terra e sobre os escravos. Com a
ajuda de Esdras, estabeleceu a Torah como constituição da nação judaica e povoou
a cidade de Jerusalém. Esdras institui a leitura da Torah em todo Shabat. Com
isso terminaram seu trabalho. O sucesso destes dois líderes parecia duvidoso.
Esdras morreu e Neemias teve que voltar para seu cargo na Babilônia. A população
voltou, então, a práticas pagãs e corruptas. Neemias foi, mais uma vez, para a
Judéia. Sua segunda estada foi muito mais curta e, aparentemente, apenas sua
aparição fez com que o povo voltasse aos ideais Moisés, de uma vez por todas.
1 Os outros reinos livres eram Edom, na borda do deserto, algumas
cidades filistéias e Tiro e Sídon, na Fenícia.
2 Os nobres acreditavam que pudessem controlá-lo.