A IDADE MÉDIA (476-1096¹ E.C.)
"Eu sou um judeu. Não tem um judeu olhos? Não tem um judeu mãos, órgãos,
dimensões, sentidos,
afeições, paixões? Alimentado com a mesma comida, ferido com as mesmas armas,
sujeito às mesmas doenças,
curado pelos mesmos meios, aquecido e resfriado pelo verão e pelo inverno, como
um cristão é? Se nos espetas,
não sangramos? Se nos fazes cócegas, não rimos? Se nos envenenas, não morremos? E se nos maltrata,
não nos vingaremos?"
Shylock² - O Mercador de Veneza -
William Shakespeare

Depois das invasões bárbaras que levaram à queda do Império
Romano do Ocidente, em 476 d.C, várias transformações sociais ocorreram na
Europa. A organização econômico-social voltou-se para o campo e as grandes
cidades deixaram de existir. O comércio reduziu-se a muito pouco e a atividade
primária do período era a agricultura. Os nobres romanos fugiram para suas
vilas, constituindo alí o que viriam a ser os castelos da época do feudalismo.
Essa desarticulação do Império Romano do Ocidente mergulha a
Europa em condições desfavoráveis. A Igreja vai assumindo um papel decisivo
nessas regiões, por ser a única estrutura solidamente
organizada³ nesse momento.
Ela influencia a mentalidade dos bárbaros, pois conta com a sua autoridade
divina. O caminho está livre para tomar decisões, já que não há um poder
político centralizado.
Acompanhando os acontecimentos, os judeus também se tornaram
lavradores, mas não por muito tempo. Por volta de 650, a Igreja, instituição
muito poderosa que era, proibiu, com sucesso, os judeus de terem escravos por
mais de 3 meses. Como o sistema de produção era unicamente escravista (não havia
ainda iniciado o feudalismo, o método vigente era o romano) não era lucrativo
para um judeu tornar-se dono de terras. Tornaram-se, portanto, comerciantes nos
reinos bárbaros aonde se estabeleceram.
Ainda por volta
deste ano, os muçulmanos do recém-formado e expansivo Império Árabe conquistaram
o mediterrâneo oriental. Nesta região ficava a Síria, lar de mercadores cristãos
que faziam a Rota da Seda. Traziam especiarias e bens raros da Índia e da China.
Estando os árabes e os cristãos em conflito, abriu-se para os judeus, que não
tinham conexão com a disputa, a oportunidade de comerciar os produtos trazidos
por esta rota.
Embora seu
número fosse muito reduzido, o papel comercial dos judeus foi importantíssimo,
representando eles basicamente os elos que ligam a Europa Ocidental aos centros
mais desenvolvidos do Mediterrâneo e do Oriente. Aos poucos, a evolução
econômica vai retirando os judeus desta função; eles passam então a se
concentrar no empréstimo e no financiamento das operações comerciais e
militares.
Tornam-se usurários, emprestando dinheiro a juros, ocupação proibida pela Igreja
para os cristãos.
Membros de uma “religião maldita”, os judeus dispõem de uma
segurança extremamente limitada. A Igreja sempre mantém diante deles uma ironia:
permite que continuem a existir, mas faz questão de isolá-los do convívio com a
população cristã. A pressão para a conversão vai aumentando.
Por outro lado, o interesse dos reis pelos judeus se deve
pelo motivo que eles executam uma alta função comercial, além do fato dos
impostos sobre os judeus serem uma importante fonte de renda para o tesouro
real. Por isso, os reis procuram proteger os judeus das restrições da Igreja, do
feudalismo e das cidades, que, cada vez mais, vão se impondo.
Estes fatores, somados à distancia que separa a Europa
Ocidental do centro judaico no mundo islâmico, originam um novo tipo de
comunidade, que se caracteriza pela autonomia das lideranças locais. Estas são
escolhidas pelos judeus de cada lugar entre os homens mais cultos, mas a
possibilidade de todos se educarem torna o sistema bastante democrático. A
autonomia judaica é muito normal dentro da sociedade da época, marcada pelo
particularismo dos grupos de vários tipos. Encorajada pela permissão que obteve
de se auto-governar, a comunidade desenvolve seus próprios padrões de
comportamento social e religioso.
O isolamento dos centros intelectuais judaicos e o muito
baixo nível da cultura geral em sua volta leva os judeus da Europa a criarem
suas próprias instituições de estudo. Homens como Guershom de Mainz e
Rashi dão
ao pensamento judaico um caráter marcadamente religioso, sem muito interesse
pelas ciências, como no Islã. Ao mesmo tempo, a necessidade de polemizar com a
Igreja origina um estudo intenso da Torá, de grande interesse para os
intelectuais judeus daquela época.
No geral, apesar das rasas condições, o judaísmo ocidental se
consolida durante estes seis séculos, lançando bases sólidas que vão lhe
permitir desempenhar, na Baixa Idade Média, as funções de novo centro judaico
mundial.
Por isso,
podemos dizer que este período que antecede as Cruzadas, onde temos os estados
nacionais, o feudalismo, as cidades, a burguesia, a moeda e vários outros
fatores, estruturou a comunidade judaica dos séculos seguintes, pois, através de
restrições, criou-se um nicho onde os judeus atingiram relativa prosperidade.
1 Neste ano, 1096, ocorreu a
primeira cruzada, movimento que deu origem a profundas transformações sociais na
Europa ainda na Idade Média. A Idade Média se estende até o renascimento, cuja
data de início é bastante discutida. Alguns historiadores dizem que já no séc
XII havia renascimento. Outros consideram-no um movimento do século XV.
2 Shylock é o personagem da peça "O Mercador de Veneza", de
Shakespeare, poeta inglês maneirista do século XVI. Antonio, um mercador não
tinha pago as dívidas que contraíra com Shylock. O contrato previa, neste caso,
que Antonio deveria dar uma libra de sua carne para Shylock.
3 A Igreja era, também a maior proprietária de terras. Chegou
a ter um terço das terras do Sacro-Império Romano Germânico.