Martin
Buber nasceu em Viena, em 1878, filho de Carl Buber e Elise Née Wurgast. Seus
pais se separam quando Buber tinha quatro anos e ele viveu os próximos dez anos
com seus avós paternais, Salomão e Adela, em Lvov, na Polônia. Seu avô era
um adepto da Haskalá que considerava-se um polonês de fé judaica, mas que
mesmo assim era muito respeitado, até pelos ultra-ortodoxos, o que abriu portas
para Martin Buber quando ele começou a interessar-se por Sionismo e pela
literatura Chassídica.
Martin Buber
foi educado em casa e conviveu, em sua infância, com uma variedade de idiomas
locais que facilmente absorveu (hebraico, ídishe, polonês, alemão). Mais
tarde, adquiriu outros idiomas também (grego, francês, italiano, inglês e
latim).
Em 1900, após
concluir seus estudos, Buber e sua esposa, Paula Winker mudaram-se para Berlim,
onde conheceram o anarquista Gustav Landauer, um dos melhores amigos do casal.
Landauer foi muito importante na vida de Martin Buber quando em 1916 ele
criticou Buber por seu entusiasmo público com o esforço de guerra alemão.
Esta crítica advinda de um amigo íntimo desviou-o de um misticismo social estatizante
para a filosofia do diálogo.
Martin Buber
foi um dos mais importantes filósofos judeus do século XX. Tal era o poder de
sua palavra escrita e oral que, durante a Primeira Guerra Mundial, muitos jovens
escreveram-lhe procurando ajuda em difíceis crises morais, religiosas e políticas.
Suas respostas eram vistas como as de uma autoridade que estava acima das
ideologias da época.
Influenciado
por Kant e Nietzsche desde pequeno e, mais tarde, por Achad
Ha’Am, acabou abandonando grande parte das influências nietzschianas, mas
carregou seu estilo profético de escrita pro muito tempo. As idéias de Martin
Buber eram reconhecidas, pelo próprio Buber, como utópicas, mas ele as manteve
até o final de sua vida. Buber era um sionista utópico e, no campo das idéias
políticas, tinha preferência pelo anarquismo e pelo socialismo.
Buber
acreditava que deveria ser criado, na Palestina um estado bi-nacional (judeu e
árabe). Seu engajamento com o movimento sionista variou muito desde que aderiu
a este. Apesar de nunca ter cessado de escrever e falar sobre o assunto, passou
mais de dez anos sem participar ativamente do movimento enquanto organização
política, restringindo-se à busca de fundações psicológicas fortes com as
quais diminuir a distância entre “política real” e a tradição teológica-política
judaica.
Em 1921, no entanto,
participou do Congresso Sionista de Carlsbad como delegado do movimento juvenil
HaShomer Ha’Tzair e, em 1928 e 29, nos debates que se seguiram em relação à
armar ou não os chalutzim, optou pelo pacifismo.
Em nenhum momento
Buber alimentou qualquer esperança de que suas visões políticas pudessem
arrebatar a maioria, mas ele acreditava que era importante articular a verdade
moral de seu próprio ponto de vista ao invés de esconder suas verdadeiras crenças
em prol de uma estratégia política. Esta autenticidade não rendeu a Buber
muitos amigos.
Em 1937, Buber imigrou
para a Palestina, filiando-se à Universidade Hebraica de Jerusalém, onde
lecionou filosofia.
Martin Buber é muito
conhecido por sua principal obra filosófica “I and Thou” (Eu e Tu),
publicada em 1923. Apesar de muito criticado por seu amigo Walter Kaufmann, que
ajudou a popularizar a obra de Buber nos Estados Unidos, “Eu e Tu” é a obra
mais importante de um dos mais importantes filósofos judeus do século passado
e está profundamente marcada pelo Judaísmo.
Buber insistia que o
princípio dialógico não era uma concepção filosófica, mas uma realidade além
do alcance da linguagem discursiva. A partir disto - a dualidade – o filósofo
simplificou a duas as relações básicas humanas (este é o maior motivo das críticas
à obra) : relações Eu-Isto e relações Eu-Tu.
De acordo com Buber,
freqüentemente julgamos tanto as pessoas quanto os objetos por sua função.
Isto pode ser útil: para um médico, ao examinar um paciente a procura de doenças
específicas, é melhor que ele veja o paciente como um organismo e não como
indivíduo; cientistas podem aprender muito sobre nosso mundo observando-o,
medindo-o, examinando-o, testando-o. Para Buber, todas estas são relações
Eu-Isto.
Infelizmente, vemos as
pessoas do mesmo modo na maioria das vezes. Ao invés de nos tornarmos
completamente acessíveis, compartilhando totalmente, realmente conversando,
compreendendo o outro, nós os observamos ou mantemos parte de nós mesmos fora
do momento da relação. Nós fazemos isto para proteger nossas vulnerabilidades
ou para fazer com que eles respondam de alguma maneira pré-concebida, para
conseguir alguma coisa. Para Buber, estas também são relações Eu-Isto.
Em oposição às relações
Eu-Isto, Buber posiciona a relação Eu-Tu, uma relação ideal. Estas relações
ocorrem quando se está completamente imerso na relação, realmente entendendo
e “estando lá” com outra pessoa, sem máscaras, pretensões, falsidades, até
mesmo sem palavras. Este é o momento da relação Eu-Tu. O vínculo criado
entre duas pessoas por uma relação deste tipo engrandece cada uma das duas.
Cada uma tenta aprimorar a outra, o resultado disto é o diálogo verdadeiro, o
compartilhamento verdadeiro.
Estas relações não
são constantes nem estáticas. As pessoas entram e saem de relações Eu-Tu e
Eu-Isto. Ironicamente, tentar atingir uma relação Eu-Tu falhará porque o
processo da tentativa torna esta um objeto e, portanto, a única relação que
se estabelece é Eu-Isto. Até mesmo descrever o momento objetifica-o e torna-o
Eu-Isto. Buber diz que uma pessoa sabe quando está num momento Eu-Isto e que
por não poder descrever esta relação pode somente encorajar as pessoas a
estarem abertas a elas. Para Buber é possível também estabelecer uma relação
Eu-Tu com o mundo e com os objetos. Pode-se estabelecer um diálogo verdadeiro
com as artes, música, poesia, etc.
A partir deste ponto,
parte da teoria de Buber pode ser interpretada por alguns como mística e
neoplatônica. Traços disto se manifestam já nas características das relações
Eu-Tu. Para Buber, Deus é o Tu Eterno. Ao tentar provar a existência de deus,
os filósofos racionalistas iniciaram uma relação Eu-Isto.
Deus é indefinível,
não se pode estabelecer condições, pré-requisitos para a relação. Nós
temos apenas que acreditar e estar abertos à relação com o Tu Eterno e quando
experimentamos esta relação Eu-Tu, o momento não precisa de palavras. Na
verdade, para Buber, os momentos mais intensos que experimentamos com outras
pessoas ocorrem sem palavras, mas Buber considera que a intensidade da experiência
é insignificante.
Buber, apesar do que
aparenta, não encorajava momentos místicos – a relação Eu-Tu mudava os
compartilhantes, mas isto acontecia tão naturalmente que algumas vezes era
quase imperceptível. Para Buber é possível ter uma relação Eu-Tu com Deus
através de relações Eu-Tu com pessoas, animais, a natureza, as artes, o
mundo.
Finalmente, Buber
apresenta uma visão judaica do momento Eu-Tu. Após nossa redenção do Egito,
o povo hebreu encontrou Deus. Estávamos abertos e disponíveis e o momento
Sinais foi um relação Eu-Tu do povo inteiro com o Tu Eterno. A Torá, os
profetas e nossos textos rabínicos foram todos escritos por humanos expressando
o Eu-Tu com o Tu Eterno. Lendo estes textos e estando abertos à relação
inerente a eles, é possível que nos tornemos disponíveis para uma relação
Eu-Tu com o Tu Eterno. Nós devemos nos apresentar sem preconceitos, sem
expectativas que limitariam a relação, tornado-a Eu-Isto. Se tentarmos
analisar o texto, novamente criamos uma relação Eu-Isto porque a análise nos
posiciona fora do texto, como observador e não como participante completo.
Para Buber, uma ação
levada a cabo porque havia sido previamente legislada não continha sentido.
Apenas as respostas aos momentos Eu-Tu podem ter significado. Por isto, Buber
discordava da importância da prática da tradição no dia-a-dia, era
suficiente responder ao Eu-Tu em qualquer momento que ele criasse.