“Aceito o mesmo
Deus que Spinoza chama de Alma do Universo. Não
aceito um deus que se preocupe com as nossas necessidades pessoais”
"Dificuldades e obstáculos são fontes valiosas de saúde e força para qualquer sociedade. Nós, judeus, não teríamos sobrevivido por milhares de anos, como uma comunidade, se nosso caminho tivesse sido um mar de rosas. Disto estou absolutamente certo".
Nascido em Ulm, pequena cidade no sul da Alemanha, no dia 14 de março de 1879,
Albert Einstein mudou-se um pouco depois para Zurique (Suiça). Entre mudanças
de cidades e falências das empresas do seu pai, Einstein enfrentou o
autoritarismo da escola alemã e os preconceitos raciais tão intensos naquela
época. Logo cedo demonstrou aptidão para atividades individuais. Ao invés de
jogos infantis no jardim, com as outras crianças, preferia construir, sozinho,
complicadas estruturas com cubos de madeira e grandes castelos de cartas de
baralho, alguns com catorze andares. Aos sete anos ele demonstrou o teorema de
Pitágoras, para surpresa do seu tio Jakob, que poucos dias antes lhe ensinara
os fundamentos da geometria.
Mas, se para a matemática e para as ciências naturais ele era mais do que bem
dotado, porque possuidor de grande intuição e habilidade lógica, para as
disciplinas que exigiam capacidade de memória era um fracasso! Geografia, história,
francês e, particularmente, o grego constituíam obstáculos quase intransponíveis;
decorar conjugações de verbos era para ele um horror! Enfim, no conjunto das
suas habilidades infantis, nada deixava transparecer o gênio que viria a ser;
seus familiares acreditavam até que ele poderia ter algum tipo de dislexia
Em conseqüência das suas dificuldades para memorizações ele se desinteressa
pelas aulas que exigem tais habilidades, provocando violentas reações dos seus
professores, tanto, que certo dia o diretor da escola disse que Einstein jamais
chegaria a servir para alguma coisa. A partir desses fatos, parece natural, à
luz da psicanálise, o "esquecimento" que Einstein sempre demonstrou
ter em relação à sua infância e à sua adolescência. Apenas três fatos
desse período lhe são relevantes: as lições de violino que sua mãe lhe
dava, as "aulas" de geometria do seu tio Jakob e a história da bússola.
Certo dia, quando aos cinco anos se recuperava de uma enfermidade, Einstein
ganhou do pai uma bússola de bolso que lhe causou profunda impressão, pois o
ponteiro sempre apontava para o mesmo lugar, não importando a posição em que
a bússola fosse colocada. Da sua época colegial ele costumava dizer que
"os professores da escola primária pareciam sargentos, e os do ginásio
pareciam tenentes"
Aos quinze anos Einstein abandona o Gymnasium e parte para Milão, onde vivem
seus pais. Um ano depois seu pai, Hermann Einstein, comunica que não pode mais
lhe dar dinheiro, pois a fábrica estava, mais uma vez, à beira da falência.
Foi então que Albert decidiu fazer física, mas, não possuindo o diploma do
Gymnasium, ele não podia entrar na universidade. Como alternativa ele poderia
freqüentar um instituto técnico, e Einstein escolhe simplesmente o mais
renomado da Europa central, a Escola Politécnica Federal (Eidgenössische
Technische Hochschule), a ainda hoje famosa ETH, em Zurique (Suiça). Na
primeira tentativa de ingresso ele é reprovado nas provas de botânica,
zoologia e línguas modernas, mas seu excelente resultado em física chamou a
atenção do diretor da escola, que lhe aconselha a freqüentar uma escola em
Aarau, próxima a Zurique, a fim de obter o diploma dos estudos secundários,
com o qual adquiriria o direito de freqüentar a ETH, ou a universidade.
Em 1895, aos dezesseis anos, Einstein estava mais do que feliz no ambiente livre
e motivador da nova escola, e se preocupava com um problema que nem ele, nem seu
professor sabiam resolver: queria saber qual o aspecto que teria uma onda
luminosa para alguém que a observasse viajando com a mesma velocidade que ela!
Este problema voltaria tempos depois, quando Einstein formulou sua teoria da
relatividade.
Em 1896, após a conclusão do secundário, ele é aceito na ETH como estudante de matemática e física, mas, para sua surpresa e decepção, a Escola Politécnica não atendia suas expectativas. Ao contrário da escola de Aarau, onde as aulas se desenvolviam em estimulantes discussões, na ETH os professores se contentavam em ler, em voz alta, livros inteiros! Para fugir do tédio de aulas tão monótonas, Einstein decide falta-las, aproveitando o tempo livre para ler obras de física teórica. Devora livros e mais livros que os professores da ETH deixavam de lado: Boltzmann, Helmholtz, Hertz, Kirchhoff, Maxwell, entre outros. Aqui, como no ginásio alemão, ele atrai a má vontade dos seus professores, e isso lhe custará caro. Para ilustrar a imagem que alguns professores tinham de Einstein, conta-se que Minkowski (professor de Einstein) teria dito, alguns anos depois do artigo sobre a teoria da relatividade: "para mim isso foi uma grande surpresa, porque na época dos seus estudos Einstein era um preguiçoso. Ele não demonstrava qualquer interesse por matemática".
Einstein confessou que passou a maior parte do tempo nos laboratórios,
fascinado com as experiências, e que era aluno negligente na maioria dos
cursos; confessou também que usou os apontamentos de um aluno aplicado - Marcel
Grossmann - para passar em algumas provas.
A despeito de toda privação material a que estava submetido, chegando mesmo a
passar dias alimentando-se precariamente, o ambiente cultural de Zurique lhe
proporcionava momentos de grande felicidade. Como se sabe, nessa parte da Europa
central estavam em gestação naquele momento as três grandes revoluções da
virada do século: o marxismo,
a psicanálise e a física moderna. A agitada Zurique é então
considerada o berço pacífico das revoluções européias; por ali circulam
personalidades hoje famosas: Lenin, Trotsky,
Plekhanov (para alguns o grande mentor da revolução soviética), Rosa
Luxemburg, Théodor
Herzl, Chaim
Weizmann (o primeiro presidente de Israel).
É nesse ambiente cultural que o jovem Einstein forja sua cultura científica. Lê
Kant entre a adolescência e a juventude e se inicia, durante o período da ETH,
na leitura de autores socialistas, particularmente Marx
e Mach. Tais leituras foram, aparentemente, induzidas pelo seu colega Friedrich
Adler. Estudante de física com propensão à filosofia, Adler era
verdadeiramente um ativista político e, já na adolescência, um inveterado
leitor dos clássicos do marxismo. Mais tarde abandona a carreira científica
para se dedicar à política, ocupando vários cargos importantes no partido
socialista austríaco. Em 1916 choca o mundo ao assassinar o primeiro ministro
da Áustria. Seu julgamento, em 18 e 19 de maio de 1917, resulta na condenação
à morte; posteriormente teve sua pena comutada para prisão perpétua, e ao
final da guerra foi anistiado. Para Einstein, Adler parecia ser o único
estudante que havia realmente entendido o curso de astronomia. Esta capacidade
intelectual de Adler parecia vir do berço; para Engels, Victor Adler (pai de
Friedrich) era "o mais capaz entre os chefes da Segunda Internacional"
.
Ao concluir o curso, em agosto de 1900, ele manifesta esperança de ocupar o
cargo de assistente do professor Hurwitz, para logo depois descobrir que perdeu
o emprego por influência do seu ex-orientador, H.F. Weber. Começam aqui as
manifestações de má vontade de seus ex-professores. Tenta, em vão, empregos
de assistente nas Universidades de Göttingen e de Leipzig. Tentou outro cargo
na universidade de Göttingen, mas foi ocupado por Johannes Stark, que veio a se
transformar em ardoroso nazista e ferrenho anti-semita, o que incomodava muito
Einstein. O insucesso na obtenção de um emprego universitário, logo após a
formatura, obriga Einstein a aceitar um cargo temporário numa escola secundária;
alguns meses depois está desempregado e passa a ministrar eventuais aulas
particulares.
Ainda com o forte impacto do livro de Mach, "História da Mecânica" e sob a influência inicial de Adler, Einstein prossegue seus
estudos científicos com uma visão política marxista. Em 1902, quando se
transfere para Berna, um pouco antes de assumir seu primeiro emprego fixo, no
Departamento Suiço de Patentes (23 de junho de 1902), Einstein
"cria", ao lado de dois amigos, Conrad Habicht e Maurice Solovine, a
Academia Olímpia. Esse grupo de boêmios, recém-formados à procura de
emprego, constitui uma contra-cultura das mais profícuas da história da ciência;
pode-se comparar a Academia Olímpia ao grupo de discussão liderado por Freud,
e que na mesma época se reunia em Viena.
As discussões na Academia Olímpia
giravam em torno de ciência, filosofia e política, a partir das idéias de
Marx e Mach. Com esses colegas Einstein discute seus primeiros trabalhos sobre a
teoria da relatividade.
Em 1908, Adler, sensibilizado com a situação do amigo, escreve ao pai:
“(...) há um homem chamado Einstein que estudou ao mesmo tempo que eu, e
seguiu os mesmos cursos que eu segui. Nossa evolução foi bastante semelhante
(...); ninguém se sensibiliza com suas necessidades, ele passou fome durante um
certo tempo e durante seus anos de estudos foi tratado com certo desprezo por
seus professores da Escola Politécnica; a biblioteca lhe foi fechada, etc., ele
não sabia como devia se comportar com as outras pessoas. Finalmente, ele
conseguiu um emprego no Departamento de Patentes de Berna e continuou a
trabalhar em física teórica, a despeito de todas essas infelicidades. (...) é
um escândalo, não apenas aqui, mas também na Alemanha, o fato de que um homem
desta qualidade trabalhe no departamento de patentes". Um pouco depois
dessa carta Einstein é admitido como privadozent na Universidade de Berna.
Numa segunda oportunidade Adler demonstra sua fidelidade ao amigo. Em 1909,
quando surgiu uma vaga para Professor Assistente na Universidade de Zurique, um
conselheiro, sugeriu seu nome para a vaga aberta. Ao recusar o cargo, ele
declarou perante o conselheiro: "Sendo possível ter um homem como Einstein
em nossa Universidade, é um absurdo me nomear. Não se pode comparar minha
habilidade de físico com aquela de Einstein. É um homem que pode elevar o nível
geral da Universidade. Não percam esta ocasião". Em 7 de maio de 1909, já
famoso, Einstein obtém seu primeiro emprego universitário permanente:
Professor Assistente de Física Teórica da Universidade de Zurique.
Einstein conhece Mileva Maric, em 1896, quando ambos ingressaram na ETH e
casaram-se em janeiro de 1903. Em maio de 1904 nasce o primogênito, Hans
Albert. O segundo filho, Eduard, nasce em julho de 1910, quando são evidentes
os sinais de desgaste do casamento. Já em 1909, Mileva escreve para uma amiga
reclamando que a fama de Einstein não lhe deixa tempo para a família. O
casamento estava chegando ao final, mas a gota d’água foi a transferência
para Berlin, em 1914, quando supostamente Einstein escreve uma espécie de
memorando dirigido a Mileva, no qual ele estabelece as incríveis condições
para continuarem juntos. Mileva e os dois filhos retornam para Zurique. A
partida de Mileva alíviou a vida de Einstein, mas foi com grande dificuldade
que ele enfrentou a separação dos filhos.
Através do seu grande amigo, Michele Besso, professor na ETH, Einstein mantém-se
informado sobre sua família. Em dezembro de 1915 ele informa a Besso sua intenção
de ir até Zurique para encontrar-se com seus filhos, mas o constante fechamento
da fronteira da Alemanha com a Suiça, em razão da primeira guerra mundial,
impede sua viagem. A correspondência prossegue, alternando discussões científicas
com notícias familiares. Ainda em 1916, mostra-se bastante preocupado com o
estado de saúde de Mileva, que sofre de uma tuberculose cerebral. Resolve,
momentaneamente, não incomodá-la com a questão do divórcio, que afinal será
concedido em 1919. Em setembro de 1917 Einstein muda-se para a casa da sua
prima, Elsa Löwenthal, com quem vive até a sua morte.
Por causa da sua posição pacifista, logo no início da Primeira Guerra Mundial
Einstein passou a enfrentar represálias políticas, inicialmente verbais e
posteriormente através de atos de vandalismo. Em 12 de fevereiro de 1920,
alegando falta de lugares para acomodar todos os interessados, algumas pessoas
provocaram distúrbios durante uma aula de Einstein na Universidade de Berlim.
Numa declaração à imprensa Einstein afirmou que existia certa hostilidade
dirigida a ele; não era algo explicitamente anti-semita, mas podia ser
interpretado como tal. Depois, em 24 de agosto do mesmo ano, a recém-fundada
organização científica Arbetsgemeinschaft deutscher Naturforscher, organizou
uma reunião na maior sala de concertos de Berlim com o objetivo de criticar o
conteúdo da teoria da relatividade e a alegada propaganda de mau gosto que seu
autor fazia em torno dela. Três dias depois Einstein comentou a reunião,
dizendo que as reações poderiam ter sido outras se ele fosse "um cidadão
alemão, com ou sem suástica, em vez de um judeu com convicções liberais
internacionais".
Com a eleição de Hitler para o cargo de Chanceler, em janeiro de 1933, a
perseguição a Einstein ameaçava atingir níveis insuportáveis. Em visita a
algumas instituições americanas, Einstein deveria voltar para a Alemanha, mas
foi desaconselhado por Paul Schwartz, cônsul alemão. Referindo-se a um
discurso que Einstein fez aos pacifistas americanos, um editor de jornal em
Berlim escreveu: "(...) esse enfatuado monte de vaidades ousou emitir um
julgamento contra a Alemanha sem saber o que acontece por aqui - coisas que serão
eternamente incompreensíveis para um homem que, para nós, nunca foi alemão, e
que se diz judeu e nada mais que judeu" . Logo em seguida tropas de choque
revistaram o apartamento de Einstein em Berlim, mas saíram de mãos vazias.
Margot havia transferido, clandestinamente, todos os papéis importantes para a
Embaixada da França em Berlim. Tropas de choque (as S.A.) revistaram a casa de
campo de Einstein, em Caputh (pequena aldeia perto de Berlim) em busca de armas
e munição, pois tinham informações de que ele dera permissão para
militantes comunistas estocarem equipamento militar em sua propriedade. Nada foi
encontrado. Tais acontecimentos haviam sido previstos por Einstein. Ao fechar a
casa em Caputh ele teria dito a Elsa: "Dreh dich um. Du siehst's nie wieder"
("Olha em volta. Não voltarás a vê-la").
Dos Estados Unidos Einstein foi para
Antuérpia. Logo depois fixou residência na costa belga. Depois Einstein foi
para a Inglaterra e depois para Nova Iorque. Sua presença nos Estados Unidos
sempre teve grande repercussão pela sua história anterior e pelo seu carisma,
mas seu trabalho científico, durante o exílio americano, jamais causou o
impacto dos trabalhos anteriores. Entre as várias atividades e manifestações
políticas, ganhou grande destaque suas cartas ao presidente Roosevelt,
incentivando-o a apoiar o programa de fabricação de armas atômicas. Sabe-se,
todavia que a participação de Einstein foi apenas marginal. Na verdade, era
"quase-ignorante" em física nuclear. Em 14 de março de 1939, ao
completar sessenta anos, Einstein deu uma entrevista ao The New York Times, na
qual declarava não acreditar que a energia liberada no processo de divisão do
átomo pudesse ser usada para fins práticos. Em julho, convencido de que os
alemães poderiam fabricar uma bomba nuclear, ele exclamou: "jamais pensei
nisso". Em 2 de agosto, Einstein escreveu a famosa carta para o presidente
Roosevelt, alertando-o para a possibilidade da bomba nuclear alemã.
Aparentemente, esta carta não causou grande impressão no governo
norte-americano; os recursos destinados para as pesquisas sobre fissão nuclear
eram insignificantes. Por sugestão de alguns cientistas, Einstein escreveu
outra carta para Roosevelt, em 7 de março de 1940. Mais uma vez, o Presidente não
foi significativamente influenciado, pois só decidiu iniciar o projeto
Manhattan em outubro de 1941. Do que se sabe, a participação de Albert
Einstein nesse projeto resume-se a esses fatos. Nos últimos anos da sua vida
ele teria dito: "Se soubesse que os alemães não seriam bem-sucedidos na
produção da bomba atômica, não teria levantado um dedo"
Obras
"O tempo é relativo e não pode ser medido
exatamente do mesmo modo e por toda a parte".
Por volta de 1900, o professor da Universidade de Berlim, Max Planck, propõe,
na seqüência de uma série de trabalhos, o modelo de absorção e emissão
discreta de radiação, introduzindo uma constante universal, hoje denominada
constante de Planck. Cinco anos depois Einstein utiliza a teoria de Planck e
explica o efeito fotoelétrico. Neste mesmo ano de 1905 ele publica mais quatro
artigos. Entre 1911 e 1913, Niels Bohr, um jovem dinamarquês em estágio de pós-doutorado
nas Universidades de Cambridge e Manchester, desenvolve o primeiro modelo atômico
da era moderna, obtendo enorme sucesso na explicação do espectro discreto do
átomo de hidrogênio; era o início da teoria quântica. Assim, sob um ângulo
personalista podemos dizer que a revolução em curso é sustentada pelo triplé
Planck-Einstein-Bohr.
Einstein é popularmente conhecido como o pai da teoria da relatividade, mas
recebeu o Prêmio Nobel especialmente pela descoberta da lei do efeito fotoelétrico,
fato pouco conhecido pelo grande público. Além dessas duas áreas de
conhecimento, Einstein tem contribuições importantes em várias outras áreas
da física. Seu primeiro artigo científico foi publicado em 1901, na Annalen
der Physik, sobre as "conseqüências do efeito da capilaridade",
um problema de termodinâmica. Continua nessa linha de trabalho até 1905,
publicando dois artigos em 1902, um em 1903 e outro em 1904, todos na Annalen
der Physik. Depois vêm os magníficos trabalhos de 1905, para muitos, o annus
mirabilis (ano miraculoso) da sua vida científica.
O primeiro artigo deste ano miraculoso foi publicado com o título "Über
einen die Erzeugung und Umwandlung des Lichtes betreffenden heuristischen
Standpunkt" ("Sobre um ponto de vista heurístico concernente à
geração e transformação da luz"). Entre os cinco, este foi o único
considerado revolucionário pelo próprio Einstein. É neste artigo que Einstein
formula a lei do efeito fotoelétrico, fazendo uso da constante de Planck para
definir o quantum de energia do fóton, uma partícula associada à luz. Sob vários
aspectos esse trabalho ocupa um lugar de destaque na história da física. Em
primeiro lugar ele retoma a interpretação corpuscular da luz, uma idéia
defendida por Isaac Newton e que fora abandonada depois dos efeitos de interferência
observados por Thomas Young em 1801.
O segundo artigo, "Eine neue Bestimmung der Moleküldimensionen"
("Sobre uma nova determinação das dimensões moleculares"), foi
aceito, no mesmo ano, como tese de doutoramento na Universidade de Zurique. Nas
palavras do próprio Einstein, o artigo tratava da "determinação do
tamanho exato de átomos a partir da difusão e da viscosidade em soluções
diluídas de substâncias neutras".
O terceiro artigo, "Über die von der molekulartheoretischen Theorie der
Wärme geforderte Bewegung von in ruhenden Flüssigkeiten suspendierten Teilchen"
("Sobre o movimento de partículas suspensas em fluidos em repouso, como
postulado pela teoria molecular do calor"), trata do movimento Browniano,
descrito pela primeira vez em 1828, pelo botânico Robert Brown ao observar que
o pólen de diversas plantas dispersavam-se na água sob a forma de um grande número
de pequenas partículas, as quais apresentavam um movimento aleatório.
O quarto artigo, "Zur Elektrodynamik bewegter Körper" ("Sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento") era, segundo Einstein, "apenas um esboço grosseiro" sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento, usando uma modificação da teoria do espaço e tempo. Este "esboço" contém o primeiro trabalho sobre a teoria da relatividade restrita.
"Às
vezes me pergunto como pôde ter acontecido de eu ter sido o único a
desenvolver a Teoria da Relatividade. A razão, creio eu, é que um adulto
normal nunca pára para pensar sobre problemas de espaço e tempo. Isso são
coisas que ele pensou quando criança. Mas o meu desenvolvimento intelectual foi
retardado, motivo pelo qual comecei a questionar sobre o espaço e tempo somente
quando já era adulto. Naturalmente, pude ir muito mais fundo no problema do que
uma criança com suas habilidades normais".
No quinto artigo, "Ist die Trägheit eines Körpers von seinem
Energieinhalt abhängig?" ("A inércia de um corpo depende da sua
energia?") Einstein propõe sua famosa equação E=mc2. Na carta
enviada a Conrad Habicht, Einstein comenta: "Ocorreu-me mais uma conseqüência
do artigo sobre a eletrodinâmica (dos corpos em movimento). O princípio da
relatividade, em conjunção com as equações de Maxwell, requer que a massa
seja uma medida direta da energia contida num corpo; luz transporta massa com
ela." Einstein mostra que não está seguro: "O argumento é
divertido e sedutor, mas por tudo que conheço o Senhor pode estar rindo de tudo
isso e pregando uma peça em mim".
Além do inegável valor científico desses trabalhos, eles estão em um
interessante contexto: trata-se da mais refinada e autônoma produção
intelectual, realizada por um técnico do Departamento de Patentes de Berna, sem
título de doutor e rejeitado pela comunidade acadêmica.
A partir de 1905 Einstein inicia uma frenética produtividade, com uma média
superior a 5 artigos por ano. Esta média diminuiu consideravelmente depois que
ele ganhou o Prêmio Nobel, em 1921. Depois dos trabalhos publicados no annus
mirabilis, sua contribuição mais importante apareceu num artigo de revisão
(1907) intitulado: "Über das Relativitätsprinzip und die aus demselben
gezogenen Folgerungen" ("Sobre o princípio da relatividade e as
conclusões tiradas dele"). Neste artigo ele introduz as primeiras idéias
sobre a teoria da relatividade geral, cuja versão na forma que hoje a
conhecemos só foi aparecer em 1915, na seqüência de vários artigos
publicados ao longo de oito anos.
A teoria da relatividade geral trata de
questões gravitacionais e cosmológicas, entre as quais uma teve enorme
repercussão, tanto no meio científico, como no grande público, através da
cobertura jornalística: à previsão de Einstein, apresentada em artigo de 1911
("Über den Einflub der Schwerkraft auf die Ausbreitung des Lichtes"
- Sobre o efeito da gravidade na propagação da luz), segundo a qual o campo
gravitacional deveria provocar a curvatura da luz. Sendo de pouca intensidade, o
efeito só poderia ser detectado com a observação de luz passando nas
proximidades de um corpo muito massivo. Durante o eclipse solar de 1919, observações
realizadas em Sobral, no Ceará, comprovaram a teoria de Einstein.
O respeito adquirido pela importância da sua produção intelectual
transformaram-no, em menos de cinco anos, de jovem marginalizado pela intelligentsia,
em scholar disputado para proferir conferências em eventos de prestígio
e para trabalhar em renomados centros de pesquisa. Em 1909 recebe o primeiro
doutoramento honoris causa, pela Universidade de Genebra (nos anos
seguintes Einstein recebeu dezenas de honrarias semelhantes). Neste mesmo ano é
nomeado Professor Assistente na Universidade de Zurique. Em 1911 o imperador
Francis Joseph assina um decreto nomeando Einstein Professor Catedrático na
Universidade Karl-Ferdinand, em Praga. Em 1912 transfere-se para a ETH. Em 1913,
aos 34 anos, Einstein recebe, talvez, sua primeira grande consagração. Planck
visita-o em Zurique para fazer um convite irrecusável: ser membro da Real
Academia de Ciências da Prússia, e diretor do departamento de pesquisa do
Instituto Kaiser Wilhelm em Berlim. Logo depois, em 1916, publica o artigo
"Grundlage der allgemeinen Relativitätstheorie" (Fundamentos
da teoria da relatividade geral), e em 1921 ganha o Prêmio Nobel de física.
Depois da relatividade geral Einstein investe numa área de trabalho sem grande
sucesso. Trata-se da sua teoria do campo unificado, uma síntese da gravitação,
do eletromagnetismo e da teoria quântica, cujo primeiro trabalho ("Beweis
für die Nichtexistenz eines überall regulären zentrisch symmetrischen Feldes
natch der Feldtheorie von Kaluza" - Prova da não existência de um
campo central simétrico universalmente regular de acordo com a teoria de campo
de Kaluza) foi realizado com J. Grommer e publicado em 1923 na Scripta
Mathematica et Physica, da Universidade de Jerusalém. Decepcionado
com os seguidos insucessos ele escreve, em 1954, ao amigo Michele Besso: "Admito
como perfeitamente possível que a física pode não estar fundamentada na noção
de campo, isto é, em elementos contínuos. Então não restará nada da minha
obra - incluindo a teoria da gravitação -, e também praticamente nada da física
moderna".
Um mês antes da sua morte escreveu: "Parece duvidoso que uma teoria de campos possa explicar a estrutura atomística da matéria e a radiação, bem como os fenômenos quânticos. Muitos físicos responderão com um convicto não porque crêem que o problema quântico foi resolvido, em princípio, por outros meios. Todavia, aconteça o que acontecer, resta-nos o consolador ensinamento de Lessing: a aspiração à verdade é mais preciosa do que sua posse garantida"
.Para saber mais: www.if.ufrgs.br/einstein.