“Se alguém não
soubesse que Maimônides era o nome de um homem, poderia pensar que é o nome de
uma Universidade”
Abraham Josuha Heschel
No ano de 1135, em Córdoba, na Espanha dominada pelos mouros, nasceu o
maior filósofo judeu da Idade Média e, talvez, o maior filósofo judeu de
todos os tempos – Rabi Moshé ben Maimon (Rambam). Vindo de uma família de
estudiosos da Torá, já na infância estudava a Torá com seu avô e
demonstrava que seu futuro seria extraordinário.
Em 1148, quando
Maimônides tinha treze anos, a cidade de Córdoba foi atacada pela seita fanática
dos Almoâdas, que pregavam a restauração da fé pura islâmica, forçando as
pessoas a se converterem ou serem expulsas. A família de Maimônides
decidiu fugir para o norte da África.
Foram onze anos
de perseguições religiosas até que sua família pudesse achar um lugar seguro
no qual se estabelecer: Fez. Rambam escreveu, durante esta fuga, seus primeiros
tratados e comentários sobre o Talmud – um sobre o da Babilônia e outro
sobre o de Jerusalém.
Fez era a
capital do Marrocos e lá os judeus podiam professar sua religião, mas somente
em lugares privados. Algumas pessoas importantes, no entanto, como o pai de Maimônides,
que havia sido líder da comunidade judaica de Córdoba, foram beneficiadas com
o direito de praticar seu culto em público.
Durante sua
permanência em Fez, ele estudou Medicina e aprofundou-se em seus estudos da Torá.
O objetivo da maior parte das obras da vida de Maimônides era fazer com que
todos judeus pudessem ter acesso ao estudo da Torá, Talmud, Guemará, etc...
Para isso, tentava simplificar os textos normalmente lidos nas escolas rabínicas
e torná-los fáceis, para que a massa judaica dispersa pudesse manter-se firme
quanto a seu judaísmo.
Foi em Fez que deu seu
primeiro passo em direção a este objetivo. Começou a compilar seu trabalho
para o comentário da Mishná. Devido a condições precárias, era obrigado a
trabalhar de memória, esclarecendo extensas discussões da Mishná sem ter o
texto. Maimônides escrevia em árabe, para que a massa judaica pudesse entender
facilmente sua obra. Foi nesta obra que publicou seus famosos Treze princípios
de fé:
Os Treze Princípios da Fé – segundo Maimônides "Ani Maamin" (Creio plenamente):
Nesta época, as conversões forçadas ao islamismo eram comuns. A muitos
judeus foi apresentada uma escolha: converter-se ou ser morto. A maioria
escolhia converter-se, mas mantinha sua religião em segredo. Alguns líderes
rabínicos manifestaram-se contra a decisão destes judeus de aceitar o
islamismo publicamente, classificando-os como não-judeus e propondo que eles se
sacrificassem em nome da fé judaica (que escolhessem o Kidush HaShem) e que se
aceitassem o islamismo perderiam sua parte no mundo vindouro. Isto só piorou as
coisas, pois estes judeus forçados a se converterem pensaram que se não teriam
lugar no mundo messiânico, poderiam abandonar o judaísmo e aproveitar a vida
neste mundo.
Maimônides
tinha uma visão muito diferente da situação. Ele escreveu um ensaio
intitulado “Iggeres Ha’Shmad” explicando que apesar de estes judeus terem
se convertido, eles ainda eram considerados judeus e não deviam se desesperar.
Rambam condenou aqueles que os chamavam de não-judeus e os encorajou a manter
sua fé internamente, mas salientou que, assim que tivessem uma chance, deveriam
fugir para algum lugar em que pudessem declarar-se judeus.
A estadia em
Fez foi curta. Em 1164, cinco anos
após a chegada, a família de Maimônides fugia novamente da perseguição
religiosa, indo para Israel, sob domínio cristão. Após um ano de estadia em
Israel, voltam para a África e se estabelecem em Fostat, cidade vizinha de
Cairo.
Em Cairo,
sofreu grandes desgraças. Sua mulher, seus dois filhos e seu pai morreram em um
pequeno intervalo de tempo. Mas o golpe mais avassalador foi a perda do irmão,
David. O irmão do Rambam era um rico comerciante de diamantes que,
importando-os da Ìndia, garantia o sustento de toda a família. Maimônides
condenava quem cobrasse pelo ensino da Torá, pois via isto como um dever de
todo judeu e se negava a aceitar dinheiro para lecionar. Felizmente, ele pôde
se sustentar através do que havia aprendido no ramo da medicina em Fez.
Tornou-se um grande médico e foi contratado como médico pessoal do sultão
Saladino. Este trabalho solucionou inteiramente sua situação financeira, mas o
deixava exausto e consumia seu tempo.
Assim, quando
Shmuel Ibn Tibbon, que traduzia seu texto “Moré Nevuchim” para o hebraico,
pediu para visitá-lo para ver alguns pontos difíceis da tradução, Maimônides
respondeu com esta carta:
"Moro em Fostat e o
Sultão reside no Cairo; estes dois locais estão a cerca de 2km de distância.
Minhas obrigações para com o Sultão são muito pesadas. Tenho de visitá-lo
todos os dias, de manhã cedo; e quando ele ou algum dos filhos, ou as pessoas
do harém, estão indispostos, não ouso sair do Cairo, porque devo permanecer a
maior parte do dia no palácio. Também acontece freqüentemente que um ou dois
dos oficiais da corte adoecem, e devo cuidar de sua cura. Portanto, em geral,
vou ao Cairo bem cedo pela manhã e se nada de extraordinário acontece, só
volto a Fostat no fim da tarde.
"A esta altura, estou quase morrendo de fome. Encontro as antecâmaras
repletas de gente, judeus e gentios, nobres e pessoas comuns, juizes e
meirinhos, amigos e inimigos – uma multidão variada, que espera pela minha
volta. Desmonto de meu animal, lavo as mãos, vou até meus pacientes, peço a
eles que esperem enquanto como alguma coisa, a única refeição que faço em
vinte e quatro horas. Então atendo meus pacientes, prescrevo receitas e orientações
para suas diversas doenças. Os pacientes entram e saem até o anoitecer, e às
vezes até, eu lhe asseguro solenemente, oito horas da noite. Converso e receito
deitado, de pura fadiga, e quando a noite chega estou tão exausto que mal posso
falar.
"Em conseqüência disso, nenhum israelita pode ter qualquer entrevista privada comigo, exceto no Shabat. Naquele dia toda a congregação, ou pelo menos a maior parte, procura-me depois do serviço matinal, quando então os instruo sobre seus procedimentos durante a semana inteira; estudamos juntos um pouco até meio-dia, quando vão embora. Alguns deles voltam, e lêem comigo depois do serviço vespertino até as Preces Noturnas. Assim passo o dia. Aqui relatei a você apenas uma parte daquilo que verá quando me visitar."
Além de ser médico pessoal do sultão, estudioso da Torá, filósofo e Nagid (líder da comunidade judaica do Egito) Maimônides também foi matemático e astrônomo. Seu trabalho nestas duas ocupações não foi tão grande quanto sua obra escolástica, mas dois casos particulares merecem nota. De Marselha, veio a ele um pedido para que emitisse seu parecer sobre a astrologia. Respondeu ao emissor do pedido que ele só deveria acreditar no que pode ser apoiado por prova racional, evidência dos sentidos ou em autoridades confiáveis. Maimônides comparou a Astrologia com a idolatria dizendo que se os astros determinassem o futuro de uma pessoa, então a vida não teria sentido e que o homem seria um escravo do destino.
No campo da Cosmologia, que naquela época englobava a Astronomia, o Rambam produziu um pensamento impressionante. Ele apoiava uma teoria interessante, a teoria da retração divina (tzimtzum), segundo a qual D’us teria se contraído para que no espaço vago pudesse criar o Universo. Muitos pensadores cabalistas da atualidade identificam esta teoria com a do Big Bang.
Apesar de tanto trabalho, Maimônides achou tempo para escrever mais obras judaicas. Escreveu o Sefer HaMitzvaot, o Mishnê Torá e o Moré nevuchim. O Sefer Hamitzvaot é uma obra sobre as mitzvót. Todos estavam (e continuam) de acordo sobre o número das mitzvot: 613. Mas não existia um consenso em relação a o que, realmente eram as mitzvot. Maimônides, em seu tradicional método sistemático e simplificador, organiza-as e descreve uma por uma, descrevendo as situações em que devem ser utilizadas.
Em 1181, dez anos após ter começado, completou suo obra-prima haláchica, o Mishnê Torá. Também chamado de Yad HaChazaká (Yad, em hebraico, tem valor numérico igual a 14, o número de capítulos em que o livro se dividia). O objetivo do Mishnê Torá era permitir que uma pessoa não precisasse gastar muito tempo e que não precisasse ser um estudioso para consultar a lei judaica (halachá). Maimônides cortou as argumentações, provas, casos e pilpul (método de diálogo desenvolvido nas escolas rabínicas), oferecendo apenas as passagens relevantes e a opinião escolhida por Maimônides.
O
Mishnê Torá foi escrito em hebraico
simples e fácil e era inteiramente sistemático, tornando-se um livro de fácil
consulta, ao contrário do Talmud, que continha suas decisões espalhadas em vários
lugares, fazendo com que fosse necessário muito estudo para compreender o que
ele continha. O objetivo de Maimônides nesta obra era reviver a compreensão da
lei oral judaica, prejudicada pela golá (dispersão) judaica e pela assimilação de alguns judeus,
como os do Iêmen, para os quais escreveu uma carta em que lhes dava conforto e
alguns conselhos de como manter a religião ou fugir.
Apesar de ser uma obra extraordinária, no início o Mishnê Torá não foi tão bem aceito pelos rabinos tradicionais. Estes criticavam Rambam por ele não ter citado referências em sua obra, dizendo que isto não poderia ser feito e que acabaria por destruir o estudo do Talmud, tornando as pessoas ignorantes no assunto. Maimônides admitiu seu erro, mas as previsões dos rabinos contrários a ele estavam erradas. A obra foi aclamada como a mais notável obra judaica desde o Talmud e serviu de modelo para as futuras fontes judaicas, como o Shulchan Aruch (Mesa Posta), de Iosef Caro, do século XVI.
Mas sua obra que mais gerou controvérsia foi o Moré Nevuchim (Guia dos Perplexos), escrito em árabe e traduzido para o hebraico. O guia, como disse Maimônides, era destinado a judeus devotos que estudavam filosofia, pois era comum estudar filosofia na época, especialmente a de Aristóteles. Maimônides tinha um pensamento muito aristotélico. A obra tinha como objetivo elucidar sistematicamente a filosofia básica e os dogmas religiosos do judaísmo.
O livro era dividido em três partes, a primeira dedicada a discussões de aparentes equívocos na Torá (contradições, antropomorfismos de D’eus, etc...). O segundo capítulo tratava da relação entre a filosofia (especialmente a “abordagem científica” aristotélica) e a perspectiva da Torá em frente ao mundo. Maimônides classificava a filosofia como um instrumento acessório à Torá, mas nunca capaz de suplantá-la, mantendo a opinião de que a Torá é infalível. A seção final do Guia está voltada a temas mais gerais, fundamentalmente religiosos: a natureza do bem e do mal, o propósito do mundo, o significado por trás dos Mandamentos, o caráter da pura devoção. No entanto, a linguagem filosófica na qual o Guia é composto tem levado a um mau entendimento das intenções de Maimônides. Perfeitamente cônscio dessas dificuldades em potencial, ele deixou claro em sua introdução que o Guia dos Perplexos deve ser lido com muito cuidado.
A oposição a este livro foi enorme, tendo sido inclusive proibido por alguns rabinos. A crítica tornou-se mais forte após a morte de Maimônides, alguns até puseram um cherem (banimento rabínico) em quem quer que estudasse o Moré Nevuchim. Muitas pessoas acabaram envolvidas e a obra foi denunciada para a Igreja Cristã. Os monges dominicanos confiscaram todos os livros de Maimônides e os queimaram num grande auto-de-fé em Mardípillias, em 1234. Oito anos depois, A Inquisição francesa imitou os dominicanos e queimando tudo na praça central de Paris. Quatro dias depois, todas as cópias do Talmud e muitos outros seforim foram queimados nesta mesma praça central. Neste momento, Rabeinu Yonah julgou que D’eus estava castigando os judeus por terem se oposto aos escritos de Maimônides e decidiu viajar de cidade em cidade para se retratar. Em cada sinagoga que ia ele dizia que havia pecado contra D’eus e contra Maimônides e seguiu assim até chegar a tumba de Maimônides, em Tiberíades, aonde pediu perdão.
Maimônides foi um filósofo racionalista religioso. Condenava interpretações literais da Torá como “o dedo de D’eus” e prescrevia seu livro O Guia dos Perplexos para estas pessoas. Maimônides via muitas coisas na Torá como metáforas. Os anjos, por exemplo, ele identificou com as leis da natureza, pois, dizia Maimônides, D’eus nunca viola as leis da natureza. Mesmo que um evento seja considerado um milagre, não é uma alteração da ordem do mundo.
Este pensamento levou Maimônides a sustentar um ponto de vista um tanto complexo. Maimônides tinha uma posição muito peculiar em relação à ressurreição dos mortos quando da vinda de Messias. Maimônides considerava o Olam Haba (mundo vindouro) puramente espiritual, não físico, com pessoas andando e vivendo normalmente. Mas ele mesmo afirma que os mortos ressuscitarão (mas não especifica quando). Agora, se D’eus não viola as leis da natureza, como pode alguém ressuscitar e viver eternamente? Maimônides acreditava na imortalidade espiritual e foi a partir disto que resolveu seu dilema. Para ele, a ressurreição era parte da profecia de Daniel e poderia se cumprir a qualquer momento, não sendo necessariamente universal e não tendo necessariamente relação com a vinda de Messias. Maimônides prossegue e diz que haverá uma era Messiânica aqui na Terra, mas somente depois disto que teríamos acesso ao Olam Haba, puramente espiritual, aonde haveria a imortalidade de todas as almas criadas por D’eus.
Maimônides morreu, aos setenta anos, em 1204 e foi enterrado em Tiberíades, na Palestina. Na ocasião de sua morte os judeus do Egito declararam três dias de luto. Seus filhos ocuparam o cargo de Nagid (líder da comunidade egípcio) por quatro gerações e sua obra influenciou muitos filósofos que vieram depois dele, não somente os judeus. Maimônides foi citado por pensadores como Tomás de Aquino, Francis Bacon e Spinoza. Hoje em dia, junto com o Rashi (sábio francês), Maimônides é a pessoa mais estudada nas yeshivot
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