JUDEUS NA ÁFRICA DO SUL

 

   
    Os judeus fizeram parte da construção da África do Sul desde o seu começo. Judeus portugueses cartógrafos e cientistas contribuíram para a descoberta do Cabo da Boa Esperança com Vasco da Gama, em 1497. Um grande numero de judeus não praticantes se instalaram na região em 1652, apesar das restrições contra não católicos. O livre culto foi dado pelo Duque da Colônia em 1803 e garantido pelos ingleses a partir de 1806. Entre os primeiros ingleses que vieram a Cidade do Cabo estavam 20 judeus. A primeira congregação judaica sul-africana foi fundada em 1841. Oito anos depois, a primeira sinagoga - Tikvat Israel – (Esperança de Israel, em referencia ao Cabo da Boa Esperança) foi estabelecida na Cidade do Cabo e existe até hoje.

    Dedicavam-se, então, à exportação de produtos agrícolas (lã, peles e vinhos). A descoberta de diamantes em 1860 e, duas décadas mais tarde, de ouro atraíram novos imigrantes da Europa Oriental, principalmente da Lituânia. Ainda no século XIX foi fundada uma comunidade judaica em Johannesburgo e um número considerável de recém-chegados se instalou inicialmente nos distritos rurais, como vendedores ambulantes, para depois se transformarem em donos de lojas nos vilarejos e pequenas cidades. Uma das principais contribuições da imigração do leste europeu foi o fortalecimento da identidade judaica na região. Ao chegarem, os novos imigrantes trouxeram consigo suas crenças religiosas e tradição, sua cultura e sua profunda ligação com o sionismo. Assim, em 1898, foi fundada a Federação Sionista Sul-Africana (em inglês South African Zionist Federation - SAZF), que passou a coordenar todas as atividades de caráter sionista no país; em 1912, o Conselho Judaico para Transvaal e Natal (fundado em 1903) e o Conselho Judaico para a Colônia do Cabo (criado em 1904) uniram-se formando o Conselho Judaico Sul-Africano, que se tornou conhecido como Board, da nomenclatura em inglês South African Jewish Board of Deputies. Como voz oficial da comunidade, o "Board" tornou-se o representante dos judeus junto às autoridades sul-africanas.

    Dos judeus que imigraram para a África do Sul, a maioria eram originários da Europa Oriental da segunda metade do século XIX, a maioria fugindo das repressões e dos pogroms em sua terra natal.

    Os judeus da África do Sul tinham uma situação econômica estável que lhes permitia arrecadar fundos significativos para a causa sionista. Das comunidades judaicas sul-africanas partia o maior número de imigrantes rumo a Israel, se comparado com outros núcleos. A Federação Sionista da África do Sul sempre foi considerada um modelo em termos de atuação. De modo geral, os judeus recém-chegados foram bem recebidos pelos fazendeiros Afrikaners (Boer), adeptos do calvinismo.

    A segunda geração de imigrantes trocou a zona rural pelos centros urbanos, nos quais havia mais oportunidades e melhores condições para educar seus filhos em ambiente judaico organizado. Nos centros urbanos, os judeus foram pioneiros em métodos modernos de comércio, dominando rapidamente alguns campos da indústria, principalmente na área têxtil e de confecção.

    As comunidades judaicas se estruturaram melhor durante os primeiros anos do século XX, período no qual foi criado o Board. Nesta época, não era fácil ser judeu na África do Sul. O anti-semitismo era muito disseminado no seio da população branca. Um sistema de cotas firmado em 1930 e reforçado em 1937 passou a bloquear praticamente toda imigração judaica ao país. Durante a Segunda Guerra Mundial, movimentos afrikaners pró-nazistas fizeram campanha contra a entrada da África do Sul no conflito ao lado dos aliados. Em 1948, com a ascensão ao poder do Partido Nacional, entra em vigor a legislação racista conhecida como Apartheid que não é somente hostil aos direitos dos negros, mas é também abertamente anti-judaica. Vale notar que o racismo já era institucionalizado há tempo. Por exemplo, os negros só podiam votar na Colônia do Cabo.

    Os judeus sul-africanos são parte de uma sociedade multirracial complexa. Representam 0,5% da população total e 3% da população branca (européia). A maioria dos judeus brancos é identificada como um grupo de língua inglesa, com cultura, língua e estilo de vida urbana. O Partido Nacional representa a maioria dos brancos afrikaners e apoiou a criação do Estado de Israel nas Nações Unidas. Com esta atitude, os medos iniciais dos judeus quanto à sua estabilidade no país se dissiparam.

    A comunidade judaica sul-africana é praticamente toda ashkenazita, com uma pequena porcentagem sefaradita na Cidade do Cabo. Possui representantes locais da maioria das organizações judaicas e sionistas do mundo. Os cinco principais movimentos judaicos para jovens são Habonim Dror, Betar, B'nai Akiva, B'nai B'rith e Maguinim (Progressistas). A maioria dos membros da comunidade recebeu uma formação religiosa e judaica na sua juventude. Quase todos participaram de um movimento juvenil ou de uma escola. Atualmente, 60% das crianças freqüentam escolas judaicas de período integral, mais de 50% dos jovens freqüentam colégios secundários judaicos. A maioria das escolas tem uma orientação ortodoxa. A comunidade possui seus próprios professores de hebraico e seus próprios rabinos. Há uma academia "Lubavitch Torá" em Joanesburgo e algumas universidades como a da Cidade do Cabo oferecem estudos judaicos. Os casamentos mistos são quase inexistentes.

    Cerca de 97% de mil judeus entrevistados por uma pesquisa* de 1998 consideram muito importante permanecer fiéis à sua herança, participar e se interessar pela cultura e vida religiosa judaicas, 80% são afiliados a sinagogas ortodoxas - há 65 no país. Aproximadamente 10% são afiliados ao Movimento Progressista e um número menor ao Massorti (Conservador). O rabino-chefe da Federação Ortodoxa é a autoridade judaica mais reconhecida. A comida kasher é facilmente encontrada e há vários restaurantes e hotéis kasher em todo o país.

Os judeus e o Apartheid

    Os judeus estavam entre os fortes oponentes do Apartheid. Os mais engajados e politizados atuavam nos meios políticos, com exceção da extrema direita. A comunidade não se envolvia na política nacional, mas a grande maioria de seus membros votou a favor do fim do Apartheid. Podemos encontrar algumas pessoas que se destacaram particularmente como defensores da causa dos negros, como a Prêmio Nobel de Literatura Nadine Gordimer, ou o roqueiro "zulu branco" Johnny Clegg. Eram pessoas que viviam um pouco à margem da comunidade, mas sempre assumiram veementemente o seu judaísmo.

    Em 1985 foram criadas duas associações judaicas - uma em Cidade do Cabo e outra em Johannesburgo - para defender maior justiça social e os direitos dos negros. À medida que a repressão governamental torna-se cada vez mais intolerável, os protestos tornam-se cada vez mais comuns no seio da comunidade judaica. O Board condena oficialmente o Apartheid e os judeus passaram a apoiar ativamente o processo político que levou ao fim do Apartheid.

    Os dirigentes negros elogiaram as organizações judaicas e os judeus que os ajudaram em sua luta¹. Após a sua eleição em 1994, o presidente Nelson Mandela expressou simpatia e compreensão em relação aos problemas judaicos e pediu que a comunidade o ajudasse a reconstruir a África do Sul. Atualmente o Board representa as principais organizações e congregações judaicas do país e é reconhecido pelo governo como representante oficial do judaísmo africano.

    Orgulhosos cidadãos de uma democracia multirracial, os judeus sul-africanos se questionam a respeito do seu futuro. Cerca de 80% do eleitorado judeu, segundo a mesma pesquisa, vota com os democratas. Os judeus da África do Sul não sofrem nenhuma pressão política ou econômica e o anti-semitismo morreu junto com a queda de Hitler. Mas, segundo a pesquisa, é difícil sentirem-se seguros em um país onde os problemas raciais não foram ainda resolvidos e o futuro é imprevisível. Noventa por cento dos judeus entrevistados declaram que a segurança é cada vez menor. A metade das pessoas que pensam em emigrar cita a insegurança como razão principal, e os outros alegam que é uma das razões. Seus países de destino são, por ordem, Israel, Estados Unidos, Inglaterra e Austrália.

    O líder palestino Yasser Arafat, no ano de 2000, conseguiu o apoio oficial da África do Sul para a criação de um estado palestino independente. Após se reunir com o presidente sul-africano Thabo Mbeki, Arafat pediu ao ex-presidente Nelson Mandela que participasse como mediador nas negociações com Israel. O líder do movimento anti-Apartheid prometeu ajudar.


    1. Um exemplo do envolvimento judaico na luta contra o Apartheid é a prisão de 17 membros do Congresso Nacional Africano, em 1963. Os cinco brancos presos eram judeus. Muitos judeus votaram contra o Partido Nacional. Havia, entretanto, mais um motivo para não votar neste partido. Membros deste haviam tentado alinhar a África do Sul com o Eixo (Alemanha-Itália-Japão) durante a Segunda Guerra Mundial.

    *Estes e outros dados fazem parte de uma pesquisa realizada entre junho e outubro de 1998 na comunidade judaica da África do Sul e da qual participaram mil pessoas cuja idade média era 45 anos, assim distribuídas: 464 homens e 536 mulheres. Dentre os entrevistados, 86% nasceram na África do Sul; e 94% eram cidadãos sul-africanos. Geograficamente, 650 viviam em Joanesburgo, 250 em Cidade do Cabo e 50 em Durban. A pesquisa foi elaborada com base em um estudo de 1995 que analisou as atitudes sociais e políticas dos judeus britânicos. A população judaica atual é estimada em 90 mil pessoas.

CHAZIT HANOAR

Chazit Hanoar

Porto Alegre

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